PRICE ou SAC no empréstimo: qual sai mais barato
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PRICE e SAC são os dois sistemas de amortização mais usados no crédito brasileiro. No PRICE a parcela fica fixa do começo ao fim, com juros caindo e amortização subindo a cada mês. No SAC a amortização é constante e a parcela cai mês a mês, porque os juros sobre o saldo devedor diminuem. O SAC quase sempre paga menos juros totais ao longo do contrato; o PRICE oferece previsibilidade de caixa, com parcela inicial menor que a do SAC para o mesmo prazo. A escolha depende do fluxo de caixa do tomador, não da matemática isolada.
Como funciona o PRICE (parcela fixa)
A Tabela Price, criada pelo matemático francês Richard Price no século 18, calcula uma parcela que se mantém constante durante todo o prazo do empréstimo. A fórmula resolve a anuidade que iguala o valor presente do fluxo de pagamentos ao montante liberado, dada uma taxa de juros mensal.
No primeiro mês, a parcela é composta majoritariamente por juros, porque o saldo devedor é alto. A parcela começa a abater principal num ritmo lento. Conforme o saldo cai, os juros do mês também caem, e a fatia da parcela que vai para amortização cresce. Na última parcela, quase tudo é principal e quase nada é juros.
A vantagem prática é a previsibilidade: o tomador sabe exatamente quanto vai pagar todo mês até o fim. Para alguém que monta orçamento doméstico apertado, parcela fixa entra direto na linha “obrigações mensais” sem precisar reservar margem de variação. O custo dessa estabilidade aparece no total: como nos primeiros meses o saldo cai devagar, o banco cobra juros sobre um saldo elevado por mais tempo.
PRICE é o sistema default do crédito direto ao consumidor (CDC) brasileiro: empréstimo pessoal, financiamento de veículo, consignado, cartão parcelado. Praticamente toda operação em que o cliente vê “parcela de R$ X por Y meses” usa PRICE.
Como funciona o SAC (amortização constante)
O Sistema de Amortização Constante segue lógica oposta: a parcela do principal (a parte da prestação que abate o saldo devedor) é fixa, e os juros são calculados sobre o saldo remanescente. Como o saldo cai linearmente, os juros caem linearmente, e a parcela total decresce mês a mês.
No mês 1, a parcela é a maior do contrato: amortização constante mais o juros sobre o saldo cheio. No último mês, a parcela é a menor: a mesma amortização constante mais o juros sobre um saldo já quase zerado.
A vantagem do SAC é matemática: como o saldo devedor cai mais rápido nos meses iniciais (uma vez que a fatia de amortização não é “rebaixada” pelos juros como no PRICE), o tomador paga juros sobre uma média de saldo menor ao longo do contrato. O total de juros pagos no SAC é sempre menor que no PRICE para o mesmo prazo e a mesma taxa.
O custo do SAC é o aperto inicial: a primeira parcela pode ser 15 a 30% maior que a do PRICE equivalente. Para o tomador que tem renda apertada no início e estável no futuro, isso pesa.
SAC é o sistema default do financiamento imobiliário da Caixa Econômica Federal e da maioria dos bancos públicos brasileiros. Em financiamento longo (20 a 30 anos), o efeito do SAC sobre o total de juros é grande, e o sistema virou padrão por isso.
Exemplo prático: R$ 60.000 em 60 meses
Para sentir a diferença na pele, considere um empréstimo de R$ 60.000 em 60 parcelas com juros de 1,5% ao mês (cerca de 19,56% ao ano), nos dois sistemas:
| Mês | PRICE parcela | SAC parcela | PRICE juros do mês | SAC juros do mês |
|---|---|---|---|---|
| 1 | R$ 1.589 | R$ 1.900 | R$ 900 | R$ 900 |
| 12 | R$ 1.589 | R$ 1.749 | R$ 776 | R$ 750 |
| 30 | R$ 1.589 | R$ 1.479 | R$ 562 | R$ 480 |
| 60 (última) | R$ 1.589 | R$ 1.015 | R$ 23 | R$ 15 |
| Total pago | R$ 95.340 | R$ 87.450 | R$ 35.340 | R$ 27.450 |
No PRICE, a parcela de R$ 1.589 se repete idêntica nos 60 meses. No SAC, a primeira parcela é de R$ 1.900 (311 reais a mais que o PRICE no mês 1), e a última é de R$ 1.015 (574 reais a menos que o PRICE no mês 60). A trajetória do SAC cruza a do PRICE por volta do mês 21, onde as duas parcelas ficam próximas.
A diferença em juros totais é de R$ 7.890, cerca de 22% menos no SAC. Esse valor não é trivial: representa pouco mais de quatro parcelas extras do PRICE economizadas em juros ao longo do contrato.
Diferença em juros totais: por que SAC paga menos
O motivo é direto. No PRICE, a primeira amortização do exemplo é de R$ 689 (R$ 1.589 de parcela menos R$ 900 de juros). No SAC, a amortização constante é de R$ 1.000 (R$ 60.000 dividido por 60 meses). Já no primeiro mês, o SAC tira R$ 311 a mais do saldo devedor.
Como o saldo cai mais rápido no SAC, o saldo médio durante o contrato é menor. Juros são cobrados sobre saldo devedor, então o tomador paga juros sobre uma base menor. O efeito acumula mês a mês.
Para empréstimos curtos (12, 24 meses) a diferença é pequena, talvez 3 a 6% do total de juros. Para financiamentos longos (20 a 30 anos), a diferença vira gigante: no financiamento imobiliário de R$ 500.000 em 30 anos, o SAC pode economizar R$ 200.000 a R$ 400.000 em juros em comparação com o PRICE, conforme a taxa de juros do contrato.
Qual escolher: perfil de fluxo de caixa
A escolha entre os dois sistemas não é só uma conta de “qual paga menos”. Envolve o que o tomador aguenta no início do contrato e como ele projeta a renda para frente.
PRICE é melhor para:
- Quem tem renda estável e quer parcela previsível
- Quem tem fluxo de caixa apertado no início e prefere parcela menor agora
- Quem planeja amortizar com sobras pontuais ao longo do tempo, sem se comprometer com parcela maior fixa
SAC é melhor para:
- Quem suporta parcela maior nos primeiros meses sem comprometer o orçamento
- Quem quer minimizar o total de juros pagos
- Quem faz financiamento longo (10 anos ou mais) e quer reduzir o efeito do juros composto
- Quem espera renda estável ou crescente ao longo do contrato
A calculadora de empréstimo pessoal trabalha com PRICE por padrão, que é o sistema da quase totalidade dos empréstimos pessoais. Para imóvel, a calculadora de financiamento imobiliário permite comparar os dois sistemas lado a lado.
Pré-pagamento em PRICE vs SAC
Quitar parte do empréstimo antes do prazo funciona diferente nos dois sistemas, e isso influencia a estratégia de quem espera ter sobras de caixa.
No PRICE, ao fazer uma amortização extraordinária, o banco oferece duas opções: reduzir o prazo mantendo a parcela igual (mais comum, economiza mais juros), ou reduzir o valor da parcela mantendo o prazo (alivia o caixa mensal, economiza menos juros no total).
No SAC, a parcela já é decrescente por construção. O pré-pagamento sempre reduz o prazo, e o cliente passa a pagar menos parcelas (sem a opção de baixar o valor da parcela, que já está caindo naturalmente).
Para quem planeja amortizar com 13º, restituição de IR ou bônus anual, o SAC tende a render mais em economia total, porque cada amortização extra acelera ainda mais a queda do saldo já descendente. No PRICE, a economia depende da escolha entre prazo e parcela, e da disciplina de continuar amortizando.
Onde cada um é usado na prática
A maioria das operações de crédito brasileiras já vem com o sistema escolhido pelo banco, sem deixar espaço para o tomador escolher. Conhecer essa distribuição evita surpresa:
| Modalidade | Sistema usado |
|---|---|
| Empréstimo pessoal de banco | PRICE (padrão) |
| Crédito consignado (público e privado) | PRICE |
| Crédito direto ao consumidor (CDC) de veículo | PRICE |
| Financiamento imobiliário Caixa | SAC (padrão) ou PRICE (opcional) |
| Financiamento imobiliário bancos privados | SAC ou PRICE (a escolher) |
| Cheque especial | PRICE em prazos pactuados |
| Parcelamento de cartão de crédito | PRICE |
O financiamento de veículo trabalha quase sempre em PRICE, com parcelas fixas de 24 a 60 meses. Quem queria SAC em CDC raramente encontra; o sistema é coisa de operações de prazo longo, e o financiamento de carro padrão fica em 36 a 48 meses, onde a diferença é pequena.
Para imóvel, vale o esforço de pedir simulação nos dois sistemas e comparar o total de juros pagos. A Caixa entrega as duas planilhas em PDF na hora, e a diferença pode bater na casa das centenas de milhares de reais ao longo de 30 anos.
Sistema híbrido (SACRE) e capitalização
Existe um terceiro sistema, o SACRE (Sistema de Amortização Crescente), que mistura características do SAC e do PRICE. As parcelas começam menores que no SAC e crescem ao longo do contrato, com a ideia de acompanhar uma carreira de salário ascendente. O sistema é raro fora de operações habitacionais antigas, e a Caixa praticamente o aposentou em favor do SAC e do PRICE.
Quanto ao método de cálculo de juros, os dois sistemas dominantes capitalizam juros mensalmente sobre o saldo devedor remanescente. A diferença entre PRICE e SAC não está na forma de calcular juros, e sim no perfil de pagamento da parcela. Em ambos, juros do mês = saldo devedor × taxa mensal.
Fontes oficiais
- Lei 4.380/1964 — Lei do Sistema Financeiro de Habitação, base do crédito imobiliário brasileiro que regulamenta uso de PRICE e SAC.
- Resolução CMN 4.676/2018 — regula operações do Sistema Financeiro de Habitação, incluindo amortização constante.
- Banco Central — Calculadora do Cidadão — gera tabelas PRICE e SAC para fluxos personalizados.
- Resolução CMN 3.517/2007 — define a divulgação do Custo Efetivo Total, aplicável aos dois sistemas.
- Caixa Econômica Federal — Habitação — simuladores oficiais com opção SAC ou PRICE.
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